Eu tenho pavor de baratas. Tudo bem, a maioria das mulheres também, mas eu fico petrificada. Perco a voz. Fico branca. O pavor é tanto que, toda vez que meus sonhos querem me mostrar um grande medo, elas aparecem.
A minha reação automática ao ver alguma pela casa é gritar para o meu pai. Sempre foi. Ele matava, mas debochava. Ou vinha com calma. Uma vez, uma se escondeu atrás do armário e nem ele, nem meu irmão quiseram caçá-la. Eu dormi dois dias no sofá da sala até ela aparecer sorrateira no corredor.
Até que, uma vez, meu pai realmente notou o meu estado. Eu tremia tanto, tanto, tanto que ele ficou impressionado.
Dia desses, uma imensa apareceu novamente. Meu pai não sabia se matava a barata ou acudia a filha. Até que a minha mãe, tão medrosa quanto eu, espirrou veneno na maldita. Depois, ambos vieram saber como eu estava, até água com açúcar eu ganhei. Nem uma piada. Nem um deboche. Nada.
Parece bobagem, mas os medos são sempre tratados com desdém. Já não estou falando de baratas, mas de outros medos. É ideia corrente que devemos nos expor a ele, para que suma. Tem medo de andar na rua? Vá trabalhar de ônibus todo dia. Tem ciúme, medo de perder quem ama? Ouça todos os detalhes passados do seu afeto e fique na dúvida sobre laços futuros, pois ninguém é de ninguém. Tem medo de um dia não conseguir se sustentar? Gaste tudo agora, para aprender a lidar com o pouco. Tem medo de ficar sozinho? Vá morar numa ilha. Terapia e tratamento, segurança afetiva, aprender a poupar e fazer amigos não são alternativas possíveis.
A gente desdenha a dor alheia quando a barata não entra no nosso quarto. Não olhamos para os outros com a mesma compaixão que olhamos para nós. Eu sofro, você não. Em vez de tentar evitar a dor do outro, queremos mais é uma estaca no seu peito. Afinal, não estamos na vida para sofrer?
Aprendi em casa que não precisa ser assim. Quero na minha vida pessoas que não me joguem no poço das baratas, mas que surjam com chinelos e venenos antes do meu primeiro grito. Que me deem água com açúcar depois, pelo simples fato de saberem que medo é medo. E respeitar isso também é amor.
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Texto escrito em 1 de março de 2010.
Olá. Agora frequentarei este blog também. É incrível como as pessoas não respeitam os medos dos outros e, ainda dizem: Deixa de bobagem, enfrenta o medo que passa. Pensam que estão ajudando assim. Sim, é verdade, precisamos enfrentar o medo. Mas será que enfrentar o medo é se jogar em cima do que causa o tal medo? eu acho que não. Pelo menos comigo não funciona assim. Acho que mais ajuda quem respeita seu medo, e te ajuda na hora que ele aparece, ou até mesmo antes dele aparecer. Cada um enxerga uma barata e a vence à sua maneira particular.
Você já leu “A paixão segundo GH”? lembrei-me desse livro quando li teu texto. ele traz uma barata no enredo.
Beijos.
mó barato.
Se você soubesse como eu partilho deste pavor… e sou gozada por isso
Eu fico assim também e é um trauma de infância difícil de vencer.
Por isso concordo com a tua frase “A gente desdenha a dor alheia quando a barata não entra no nosso quarto. “; infelizmente, é mesmo assim.
Beijo grande,
Cátia